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Na Europa do século XVIII, o professor Henri Faust encerra cinquenta anos de atividade universitária cercado pelas homenagens reservadas aos grandes sábios, mas incapaz de partilhar o entusiasmo daqueles que celebram sua carreira. A ciência conferiu-lhe prestígio e autoridade intelectual, porém não lhe permitiu dominar as forças da natureza, vencer a velhice ou recuperar os anos consumidos pelo estudo. Diante da proximidade da morte, Faust contempla a própria existência como uma sucessão de oportunidades perdidas: não conheceu plenamente a juventude, permaneceu distante do amor e tampouco alcançou a revelação definitiva que justificaria uma vida inteira dedicada ao conhecimento.


É nesse estado de desencanto que surge Mefistófeles, emissário de Lúcifer e intérprete preciso das fragilidades humanas. Ele oferece ao professor aquilo que a ciência jamais pôde conceder: um corpo jovem, saúde, liberdade e a possibilidade de recomeçar. A transformação acontece antes da assinatura definitiva do pacto, permitindo que Faust experimente a juventude sem entregar imediatamente a alma. Sob a aparência luminosa de Gérard Philipe, o velho professor converte-se, contudo, num desconhecido sem documentos, patrimônio ou posição social, enquanto Mefistófeles assume seus traços envelhecidos, ocupa sua residência e utiliza a identidade roubada como instrumento de influência.


A juventude, inicialmente apresentada como libertação, revela rapidamente uma natureza contraditória. Possuir um corpo renovado não significa controlar o próprio destino, e Faust descobre que a liberdade prometida pelo demônio permanece condicionada à dependência, à sedução e ao progressivo abandono de seus princípios. O encontro com Marguerite introduz a possibilidade de uma afeição genuína, oposta à lógica de posse defendida por Mefistófeles. O tentador, entretanto, amplia sua oferta: à beleza e ao prazer acrescenta o ouro, a autoridade política, a supremacia científica e a capacidade de conhecer o futuro, inclusive as guerras, revoluções e formas de destruição produzidas pela ambição humana.


Livremente inspirada no mito de Fausto e na obra de Johann Wolfgang von Goethe, a narrativa é conduzida por René Clair como uma fantasia filosófica em que humor, ilusão teatral e inquietação moral coexistem dentro de uma encenação de grande precisão. Michel Simon e Gérard Philipe alternam juventude, velhice, vulnerabilidade e perversidade num elaborado jogo de espelhos, fazendo da troca de aparências o centro dramático do filme. Entre a Mulher e o Diabo ultrapassa, assim, a condição de simples história sobrenatural: é uma reflexão sobre o desejo de recuperar o tempo perdido, sobre o vazio do poder absoluto e sobre a resistência da consciência diante de uma promessa que oferece o mundo inteiro, mas exige como pagamento a liberdade interior.


Registro da Obra
Título Original La beauté du diable
Título Entre a Mulher e o Diabo | A Beleza do Diabo
Ano 1950
Direção René Clair
Países de origem França, Itália
Gênero Drama, Comédia, Fantasia, Comédia Dramática
Cores Preto & Branco
Elenco Michel Simon, Gérard Philipe, Nicole Besnard, Simone Valère, Carlo Ninchi, Raymond Cordy, Tullio Carminati, Paolo Stoppa, Gaston Modot, Mario Gallina
Produtor Salvo d’Angelo
Duração 97 Min.
Idioma Original Francês
Compositor Roman Vlad
Fotografia Michel Kelber
Montagem James Cuenet
Baseado em Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe
Roteiro René Clair, Armand Salacrou
Registro da Edição
Legenda Checo, Espanhol, Inglês, Italiano, Português

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