Confira as Novidades do Nosso Site VER OS FILMES

(21) 99107-7973

0

Em Ouro e Maldição, Erich von Stroheim transforma a trajetória de John McTeague em uma das mais cruéis descidas morais do cinema mudo. Ex-trabalhador de mina, bruto, limitado e de temperamento passivo, McTeague aprende odontologia de maneira empírica e passa a exercer a profissão em San Francisco, onde leva uma vida modesta até conhecer Trina Sieppe, jovem tímida e reservada que chega ao seu consultório acompanhada por Marcus, amigo de McTeague e homem que também nutria interesse por ela. O encontro, inicialmente banal, altera para sempre o destino dos três. Depois do casamento, Trina ganha na loteria uma quantia que deveria representar estabilidade e ascensão, mas o dinheiro passa a agir como força corrosiva, despertando nela um apego doentio à posse e convertendo o lar em espaço de privação, avareza e tensão. Ao mesmo tempo, Marcus, tomado pelo ressentimento, sente que abriu mão não apenas da mulher, mas também da fortuna que imagina lhe pertencer por direito moral. Quando McTeague perde o direito de trabalhar como dentista, a pobreza se instala e a degradação torna-se inevitável. O que começa como drama doméstico evolui para uma narrativa amarga sobre obsessão, ciúme, humilhação e violência, conduzindo os personagens a uma ruína sem redenção, até alcançar no deserto um desfecho de feroz intensidade, em que ganância, destino e brutalidade se fundem numa imagem definitiva da destruição humana.

 

Registro da Obra
Título Original Greed
Título Ouro e Maldição
Ano 1924
Direção Erich von Stroheim
Países de origem Estados Unidos
Gênero Drama, Suspense
Cores Preto & Branco
Elenco Zasu Pitts, Trina, Gibson Gowland, Jean Hersholt, Dale Fuller, Tempe Pigott, Sylvia Ashton, Chester Conklin, Joan Standing, William Barlow, Lita Chevrier, Jack Curtis, Gwendolynne D'Amour, James F. Fulton, Edward Gaffney, Florence Gibson, James Gibson, Oscar Gottell, Otto Gottell, Cesare Gravina, Bee Ho Gray, Frank Hayes, Charles W. Grannis, Harold Henderson, Austen Jewell, Tiny Jones, Lillian Lawrence, J. Aldrich Libbey, Hughie Mack, Hugh J. McCauley, Jack McDonald, Fanny Midgley, William Mollenhauer, Lon Poff, Reta Revela, Alexander Rose, S.S. Simon, Max Tyron, Erich von Ritzau, Erich von Stroheim, James Wang
Duração 240 Min.
Registro da Edição
Idioma Mudo (Trilha Sonora)
Legenda Checo, Espanhol, Francês, Italiano, Português
Registro Editorial
Contexto do Filme Greed ocupa um lugar singular na história do cinema por condensar, numa única obra, a ambição estética de Erich von Stroheim, a herança literária do naturalismo finissecular e a violência industrial do sistema de estúdios em consolidação. Adaptado do romance McTeague, de Frank Norris, o filme nasce como um projeto de rara radicalidade para o seu tempo: em vez de simplificar a matéria literária, Stroheim procurou preservar sua lógica de degradação progressiva, observando os personagens não como tipos heroicos, mas como criaturas submetidas a impulsos, carências, ressentimentos e condicionamentos materiais. O resultado foi uma narrativa de impressionante densidade moral, centrada na transformação do desejo de estabilidade em delírio possessivo, na erosão da amizade pela inveja e na redução da vida conjugal a um regime de miséria, humilhação e violência. O que torna Greed ainda mais decisivo, porém, é o fato de sua fortuna crítica estar inseparavelmente ligada à sua mutilação: a obra concebida por Stroheim em extensão monumental foi reduzida a uma fração de seu desenho original, convertendo-se em símbolo maior do confronto entre autoria e controle de estúdio. Mesmo assim, a versão sobrevivente preserva uma força dramática e visual suficiente para que o filme continue a ser visto não como ruína menor, mas como um dos cumes trágicos do cinema mudo.
Contexto Histórico Inserido na década de 1920, Greed reflete a influência direta do naturalismo literário no cinema, especialmente a tradição de observar o indivíduo condicionado por fatores sociais e econômicos; o filme também dialoga com a urbanização acelerada dos Estados Unidos e com as tensões entre ascensão material e decadência moral, características de uma sociedade em transformação.
Curiosidades de Produção Poucos filmes da década de 1920 concentram uma história de produção tão célebre quanto Greed. A insistência de Stroheim em filmar em locações reais, incluindo ambientes de San Francisco e o desfecho no Vale da Morte, fazia parte de um programa estético de realismo obsessivo, contrário ao artificialismo de estúdio e coerente com sua leitura naturalista da obra de Frank Norris. Esse método, no entanto, implicava custos altos, tempo excessivo de filmagem e um volume de material incompatível com os padrões comerciais que a Metro-Goldwyn pretendia consolidar. Relatos posteriores e documentação de arquivo registram que a montagem inicial alcançava extensão monumental, tendo sido depois reduzida em sucessivas etapas até a forma muito menor que se tornou conhecida do público. A fama histórica do filme não decorre apenas do que se perdeu, mas também do que permaneceu: mesmo amputado, o filme ainda deixa perceber o alcance de um projeto que ambicionava aproximar o cinema da espessura estrutural do romance. Por isso, toda discussão séria sobre Greed é também uma discussão sobre conservação, reconstrução e memória do cinema, já que sua existência moderna está inevitavelmente ligada à ideia de obra sobrevivente e parcialmente irrecuperável.
Erros de gravação Após Marcus quebrar o cachimbo de McTeague e lançar uma faca contra ele, os homens arrancam a gravata do protagonista durante a luta; na sequência imediata, ao sair correndo do salão, a gravata reaparece intacta, configurando um erro evidente de continuidade visual A carta enviada ao personagem por uma junta de examinadores dentários apresenta inconsistência temporal, pois o carimbo postal indica o mês de maio enquanto o conteúdo da correspondência está datado como fevereiro Marcus afirma que o aniversário de Washington ocorre em uma quarta-feira, porém, de acordo com os calendários mostrados anteriormente no próprio filme, a data corresponderia a uma quinta-feira, caracterizando erro factual interno Os calendários de parede visíveis na cena em que McTeague conhece Trina indicam que o dia é domingo, o que contradiz a lógica profissional da época, já que consultórios odontológicos raramente funcionariam nesse dia.
Estilo do Diretor O estilo de Erich von Stroheim em Greed representa uma das manifestações mais radicais do naturalismo cinematográfico na era silenciosa, caracterizando-se por uma recusa sistemática da estilização artificial em favor de uma observação minuciosa e implacável do comportamento humano; sua abordagem privilegia a materialidade dos espaços, a fisicalidade dos corpos e a progressiva degradação moral dos personagens, tratados não como arquétipos dramáticos, mas como indivíduos condicionados por ambiente, hereditariedade e pulsões primárias, em clara continuidade com a tradição naturalista de Émile Zola; Stroheim constrói a mise-en-scène com rigor documental, utilizando locações reais, gestos prolongados e ações cotidianas para dissolver a fronteira entre ficção e observação social, evitando qualquer forma de idealização ou romantização; sua direção enfatiza a repetição, o acúmulo e o desgaste, permitindo que a narrativa se desenvolva por erosão, e não por clímax tradicionais, resultando em um cinema de densidade psicológica extrema e brutalidade emocional rara para o período.
Legado e Importância O legado de Greed ultrapassa sua condição de obra cinematográfica para se tornar um marco estrutural na história do cinema enquanto linguagem e indústria; frequentemente citado por instituições como o British Film Institute e estudos acadêmicos internacionais, o filme é considerado um dos exemplos mais emblemáticos de tensão entre autoria e sistema de estúdios, servindo como referência central em discussões sobre preservação, restauração e reconstrução de obras incompletas; sua abordagem naturalista influenciou gerações posteriores de cineastas interessados na representação crua da realidade e na análise da degradação humana, enquanto sua história de produção consolidou-se como paradigma do chamado “filme perdido” ou “obra mutilada”; Greed permanece, assim, como uma peça fundamental para compreender tanto a evolução estética do cinema quanto seus limites industriais.
Observações Técnicas Greed foi originalmente concebido e filmado em película 35mm dentro do padrão da era muda, utilizando proporção de quadro próxima ao formato academy primitivo, com composição visual cuidadosamente estruturada para enfatizar o realismo e a observação comportamental; a direção de Erich von Stroheim privilegiou o uso de luz natural e locações reais, evitando a estilização artificial comum ao cinema de estúdio da época; a montagem original, amplamente documentada em registros históricos e arquivos de instituições como o British Film Institute, foi reduzida drasticamente, resultando na perda de segmentos narrativos inteiros, o que impactou a continuidade dramática e a construção de personagens; versões posteriores reconstruídas recorreram ao uso de fotografias de produção e intertítulos para reconstituir parcialmente a estrutura original, tornando o filme um dos casos mais relevantes para estudos de restauração e reconstrução cinematográfica.
Recepção Crítica Desde seu lançamento, Greed foi marcado por uma recepção profundamente condicionada por sua versão mutilada, o que levou a críticas inicialmente ambíguas; registros da imprensa da época indicam que a redução imposta pela Metro-Goldwyn comprometeu a compreensão plena da narrativa, eliminando subtramas e reduzindo o desenvolvimento psicológico dos personagens; contudo, já nas décadas seguintes, críticos e historiadores — especialmente ligados a instituições como o British Film Institute — passaram a reavaliar a obra não apenas pelo que sobreviveu, mas pelo que ela representava enquanto projeto artístico, reconhecendo nela um dos exemplos mais radicais de naturalismo cinematográfico; ao longo do século XX, Greed consolidou-se como obra canônica, frequentemente citada em estudos sobre cinema mudo e incluída em listas de filmes essenciais, sendo valorizada pela sua brutalidade emocional, rigor visual e ambição estrutural.
Nota da Curadoria Greed não é apenas um filme, mas um testemunho do que o cinema poderia ter sido antes de ser plenamente domesticado pela lógica industrial; há, em cada plano, uma sensação de aspereza e verdade que não busca agradar, mas expor, desmontar e corroer; trata-se de uma obra que não oferece conforto nem redenção, apenas a lenta e inevitável decomposição de vínculos humanos sob o peso da obsessão material; para o colecionador e para o espectador atento, Greed representa não apenas uma experiência cinematográfica, mas um confronto direto com a dimensão mais crua do comportamento humano, tornando-se uma peça essencial em qualquer acervo dedicado ao cinema como arte.
Citações | Diálogos “OURO — OURO — OURO — brilhante e frio, difícil de conquistar e fácil de perder”
Movimento Cinematográfico Cinema mudo, Naturalismo cinematográfico, Cinema clássico hollywoodiano

Escreva um comentário

Nota: HTML não suportado.
    Ruim           Bom